quinta-feira, 15 de março de 2012

Congratulação poética

Decidi poetizar,
Afinal "a vida é poesia"
E por mais que seja às vezes fria
É preciso devanear.

Talvez por uma questão de fuga,
ou mesmo por uma homenagem
A poesia cai com uma folhagem
seca sobre uma senda suja.

Suja porque pisada.
Um viver errante de (auto)massacre
Há, por isso, quem fale
que se trata de palavra mal acabada.

É-o não nego
Simplória e funcional, surge de uma necessidade:
a de correr para longe deste mundo de verdade.
Não o fazendo fico irrequieto - sem fazer poesia não sossego.

Mas uma homenagem foi pensada inicialmente
Nesse objetivo é importante dedicar-me:
render cumprimentos tardios e colocar-me
a falar de uma data dedicada ao corpo e à mente.

Ontem foi o Dia Nacional da Poesia
os poetas fizeram festa,
eu não fui nesta
Mas cheguei hoje, juntando os retalhos e tirando o pó da mobília.

Os aspirantes e não poetas chegam depois
quando tudo já está acabado,
Só conseguem pensar aquilo que é passado
Poetizar o que se foi.

Quem sabe me antecipe um dia
ao futuro.
E, saindo de meu (quase-poético) quarto escuro
possa também fazer poesia.

Ser um artista dos versos, um poeta
galgando a bela exteriorização de palavras,
essas verdadeiras armas
que tocam o coração e mantêm a mente aberta.

Devo ainda estar distante,
Penso não fazê-la bem,
Muito menos tocar corações.

Mas estou a buscá-la, cara aniversariante.
Tão profunda e bela assim não tem,
resta-me dizer-lhe: "Poesia, aqui presto minhas congratulações."

quarta-feira, 14 de março de 2012

Círculo Vicioso

Poema de Machado de Assis reproduzido em homenagem ao Dia Nacional da Poesia.


Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
- Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
que arde no eterno azul, como uma eterna vela !
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

- Pudesse eu copiar o transparente lume,
que, da grega coluna á gótica janela,
contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela !
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

- Mísera ! tivesse eu aquela enorme, aquela
claridade imortal, que toda a luz resume !
Mas o sol, inclinando a rutila capela:

- Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Porque não nasci eu um simples vaga-lume?

(ASSIS, Machado. Círculo Vicioso. In:             . Melhores Poemas. Seleção Alexei Bueno. São Paulo: Global, 2000.)

quarta-feira, 7 de março de 2012

Relato de um viajante rumo ao desconhecido: o percurso de um (andarilho) ledor de Sérgio Aquino


            Começo o meu percurso, perdido. Andei por um caminho que não era só meu. Aliás, por um caminho construído por outrem, mas trilhado por mim. Confesso que sem querer já tinha contribuído para a feitura da referida senda, mas nem eu, nem o feitor inicial o sabíamos: há sendas que se bifurcam[1].
            Parece-me um caminho prolixo (e ambíguo) o que escolhi para me enunciar. A quem não sabe sobre o que falo restam incompreensíveis as palavras. Não é só uma questão de sintaxe, é também de semântica, pois não parto de elementos tidos como lugar comum. Talvez o sejam, mas não avisei isso. Entretanto, pretendo fazê-lo conforme meu caminhar. Alguém aí quer me acompanhar?
            Pois bem, aos corajosos desejo as boas vindas. Estes saberão do que (e de quem) falo: da obra e seu autor. A obra: “Rumo ao desconhecido: inquietações filosóficas e sociológicas sobre o Direito na Pós-modernidade”. O autor: “Sérgio Ricardo Fernandes de Aquino[2]”, meu nobre amigo e parceiro intelectual – ainda que a distância.
            Não pude deixar de fazer por escrito meus agradecimentos ao presente que me enviaste, caro amigo: seu pensamento traduzido em páginas de uma obra deveras instigante.
            Tendo me dirigido à sua pessoa (função conativa), passo a falar em geral, de um modo amplo não direcionado a ninguém, mas a um fato, ou melhor, a um conjunto de fatos, fenômenos, sensações e reflexões (função referencial) suscitadas a partir da leitura de seu agradável livro…
            Iniciar com Maffesoli uma obra denota, indubitavelmente, uma audácia típica do espírito Pós-moderno: trata-se de um respeito notável pelo potencial afetivo, que proclama a Razão Sensível como uma força vital, a qual, na Modernidade, foi arrefecida por conclusões demasiado racionalistas e que, sublimando o desejo, engenharam a maquinaria do poder em desrespeito à pessoa em sua humanidade.
            A experiência do sensível, vivida no cotidiano, prova que não podemos nos apegar aos ditames logicistas abandonando nossas pulsões. Tratar-se-ia de um assassinato do desejo[3], fato com o qual não se pode corroborar. Já é tempo de nos abrirmos ao novo ao que é de fora de nós e do sistema (pseudo)perfeito criado pela Razão Moderna. Para isso, digo uma vez mais: é preciso ter coragem e “(…) tomar parte na destruição de ideais ou de teorias obsoletas, ainda que isso deva perturbar algumas sonolências dogmáticas.”[4]
            Foi isso que Sérgio fez: combateu, ao modo Pós-moderno, a obsolescência moderna e “(…) o ciclo virtuoso das análises óbvias. Dessas análises sem vida, feitas mais de virtuosismo que de amor.”[5]
            Perpassando pela tese que vê o Direito como um fenômeno sociocultural (Miguel Reale) e, lançando sobre o discurso jurídico a análise semiológica, a obra de Sérgio desvenda os mito jurídico moderno[6] da inverídica e indesejável assepsia de que é provida o Direito, segundo assinala o Positivismo Lógico.
Não obstante, tendo o Direito como produto da cultura (Reale), construído cotidianamente (Maffesoli), e orientado pela Política Jurídica de Osvaldo Ferreira de Melo, que propõe uma nova forma de se pensar o Direto, sobretudo a partir de critérios como a Justiça, a Legitimidade e a Utilidade, que culminariam na “(…) realização de novas utopias carregadas de esperança”[7], Aquino explana sua obra, trilha seu caminho e convida o leitor a percorrê-lo também, como que num passeio ao léu[8] waratiano. Não se pode adjetivar Aquino de “totalitário” que, seduzindo-se pelas próprias idiossincrasias, universaliza (forçosa e falaciosamente) seu pensamento considerando todo o resto como um erro. Pode-se, sim, falar de um chamado, não só para se chegar ao (desconhecido) destino, mas também para caminhar, ou mesmo navegar – afinal, “é preciso”, diz o poeta[9] – , pois o próprio trajeto é suficiente para tornar o convite irrecusável.
Aqui uma pausa metalinguística é inevitável. Ao escrever, perdi-me, como fiz ao ler, ou melhor, ao deambular pelas linhas da inquietante obra de Sérgio. Comecei narrando um percurso, ou seja, fiz transparecer a ideia de movimento (narrativa em devir). Em seguida, descrevi lugares deste percurso, o que, por sua vez, tem muito mais a ver com algo estanque, definitivo. Dito de outro modo: elenquei (sinteticamente) lugares, partes, fragmentos do caminho, como se fosse possível fazê-lo sem incidir no erro da Modernidade: fragmentar o saber[10] e (frustradamente) tentar elevá-lo ao patamar do universalismo.
Mas ainda é tempo de me encontrar. Saber onde me encontro ou pelo menos de onde devo reiniciar a partida. Dizia eu que caminhava perdido por um caminho que não era só meu. Assim me exprimi para mostrar a relação entre escritor e leitor. Aquele, ao fazer sua obra, traça um caminho que leitor, assim como ele próprio (o autor), caminha para se chegar um lugar. Vão em rumo a algum local – na obra de Aquino, o rumo é ao desconhecido.
O desconhecido o é não porque não se tem sequer noção dos elementos que o compõem, mas porque estes mesmos elementos têm sua potencialidade tão suprimida que, verdadeiramente, não podem ser classificados como conhecidos. “O amor, o respeito, a dignidade, a tolerância, ou seja, os sentimentos que perpassam o exercício da cidadania”[11] são conhecidos discursivamente. Na experiência vivida, ainda que estejamos e valorizemos o período pós-moderno, os sentimentos sobreditos ainda padecem da liberdade que lhes é necessária, basta pensar na força que a indiferença (disfarçada de igualdade) possui.
Desconhecido, para mim, não era todo o trajeto. Até mesmo o trilhei parcialmente antes da obra, eis que conhecia Maffesoli, Warat além de outros e com eles caminhei ao léu. Por isso asseverei que de alguma maneira havia depositado minha contribuição para a feitura do caminho, mesmo sem o saber e sem que Sérgio soubesse. Entretanto, desconhecia muitos trechos da trilha, o que me agregou sobremaneira um conhecimento topográfico-humanista notável. Pude caminhar com Osvaldo Ferreira de Melo, com quem jamais o havia feito. Ademais, caminhei de formas diferentes com autores que já conhecia.
Porém, como a todos que adentram numa vereda, não era só o atrativo do percurso que me interessava, objetivava eu um destino e este foi um lugar eticamente belo (a ética como fundamento estético da convivência), no qual, ao serem preservados os “(…) eixos (mínimos) [o amor, o respeito, a dignidade, a tolerância], constroem-se normas cujos valores não se perdem com o tempo, ao contrário, afirmam a percepção de uma Cultura cujo conteúdo respeita e concretiza o belo sentido da condição humana, por um lado, e a sua infinita possibilidade de aperfeiçoamento por outro.”[12]
Foi por isso que em minha exposição inaugural aduzi acerca de uma construção conjunta sem que um e outro soubéssemos disso, pois me servindo de outros baldrames filosófico-sociológico-jurídicos convergimos para um mesmo espaço de destino: rumamos ao desconhecido cada qual de seu jeito, cada qual pelo caminho que escolheu. Caminhos paralelos que se atravessam – há pontos de intersecção na trilha – mas que desembocam num mesmo lugar: um território desconhecido[13].
Em suma, ao ter em mãos a obra de Sérgio Aquino, além das inquietações inúmeras, das reflexões inevitáveis e da surpresa a cada parágrafo, tive também a lembrança de Warat, quando dizia que há jardins em que as sendas se bifurcam. Posso dizer que saímos do jardim da racionalidade moderna, bifurcamos a vereda e rumamos ao (desconhecido) jardim pós-moderno. Lá não encontramos um espaço totalitário, nem jurídica, nem socialmente, pois lá é o espaço em que, como diz Aquino, consolida-se a condição humana e onde o potencial de aperfeiçoamento é infinito, posto que está sempre sujeito à mudança, afinal é regido pelos eixos – em devir – da tolerância, da dignidade, dos afetos e da ética como fundamento estético da existência humana.
Caro Sérgio. Grato por me presentear com sua (esteticamente agradável) obra. Desculpe-me (eticamente) pela demora em sinalizar minhas (mais entusiasmadas) impressões acerca dela. Bem sabemos que na pós-modernidade o tempo é líquido, fluido. Tão fluido que nos escapa às mãos e não nos permite (ou ao menos dificulta) reflexões profundas e, mais ainda, a exteriorização delas, sobretudo em se tratando de obra tão rica como a sua.
Meus sinceros agradecimentos.
Grande abraço…



Everton Luís da Silva
Gêmeas do Iguaçu
(União da Vitória/PR e Porto União/SC)
04/03/2012


[1] WARAT, Luis Alberto. El jardin de los senderos que se bifurcam. In: _____. Epistemologia e ensino do Direito: o sonho acabou. v. II. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2004. p.469-484
[2] O autor é Doutorando e Mestre em Ciência Jurídica pela Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI. Especialista em Administração Global pela Universidade Independente de Lisboa - UNI. Bacharel em Direito pela Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI. É editor do Blog “A Utopia do Direito”, com endereço: http://sergioaquino.blogspot.com/
[3] ROCHA, Fábio Libório. Schopenhauer e o assassinato do desejo – a servilidade do sujeito balizada sob dois aspectos: a liberdade e a racionalidade. União da Vitória: Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras. nº 75. Kaygangue, 2003. 118 p. (Coleção Vale do Iguaçu).
[4] MAFFESOLI, Michel. Elogio da razão sensível. Trad. Albert Christophe Migueis Stuckenbruck. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 13.
[5] MAFFESOLI, Michel. O ritmo da vida: variações sobre o imaginário pós-moderno. p. 11 apud AQUINO, Sérgio Ricardo Fernandes de. Rumo ao desconhecido: inquietações filosóficas e sociológicas sobre o Direito na Pós-modernidade. Itajaí: Universidade do Vale do Itajaí, 2011. p. 33.
[6] GROSSI, Paolo. Mitologias jurídicas da modernidade. Trad. Arno Dal Ri Jr. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2004. 150 p.
[7] MELO, Osvaldo Ferreira de. Fundamentos da política jurídica. p. 19 apud AQUINO, Sérgio Ricardo Fernandes de. Op. Cit. p.138.
[8] WARAT, Luis Alberto. O amor tomado pelo amor, p. 308.
[9] PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1987. p. 1.
[10] Descartes diz que para melhor considerar as matérias em particular “(…) teria de supô-las como linhas, porque não encontrava nada mais simples que pudesse representar mais distintamente à minha imaginação e aos meus sentidos; mas, para reter e compreender várias ao mesmo tempo, eu precisava explicá-las por alguns sinais, os mais curtos possíveis, e que, deste modo, aproveitaria o melhor da análise geométrica e da álgebra e corrigira todos os defeitos de uma pela outra.” (DESCARTES, René. Discurso do método. Trad. Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 1996. p. 25.)
Um esclarecimento é importante: Descartes não fitava elevar suas considerações a patamares universais. Segundo Boaventura, trata-se mais de uma “(…) maravilhosa autobiografia espiritual” (SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2007. p. 61). A ideia de universalidade remonta a outros pensadores modernos.
[11] AQUINO, Sérgio Ricardo Fernandes de. Rumo ao desconhecido, p. 148.
[12] AQUINO, Sérgio Ricardo Fernandes de. Rumo ao desconhecido, p. 148.
[13] Referência à (irrepreensível) coletânea de obras: WARAT, Luis Alberto. Territórios desconhecidos: a procura surrealista pelos lugares do abandono do sentido e da reconstrução da subjetividade. v. I. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2004. 583 p.


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Afinal, são coisas do coração...


E a ingenuidade permanece...

É perene.

Pobre ingênuo que do alto de sua intelectualidade analítica não consegue perceber comportamentos simples e evidentes. Singelos e tocantes. Logo ele que costuma ser tão atento aos detalhes e supervalorizar essas espertezas da vida, agora sequer pode ver em que estado se encontra.

Vê sim outra condição sua, pensa que é a única, e que inexistem situações simultâneas que podem tocá-lo, afetá-lo; quando na verdade é sim afetado, de um modo que ele não entende bem, isso porque não sabe do processo de afetação... Afinal, são coisas do coração, e a razão nem sempre dá a liberdade necessária para o sentimento.

Às vezes, o sentimento também não se permite livre. Pelo menos não livre absolutamente: é o gozo de uma liberdade outra que de tão intensa que é ofusca os olhos com o manto da ingenuidade.

Resta saber qual a melhor opção: ser livre perspicaz ou ingenuamente? Livre a partir de uma nova inocência?

Ele não sabe. Decidir demanda um processo de reflexão, algo perto do que ele considera razão.
Isso, contudo, é insuficiente: Afinal, são coisas do coração...

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Sempre há possibilidade de escolha à lógica estabelecida, é a lição deixada pelo Holocausto


"A importância atual do Holocausto está na lição que ele traz para toda a humanidade.

A lição do Holocausto é a facilidade com que a maioria das pessoas, colocadas numa situação em que não existe boa escolha ou que a torna muito cara, arranja uma justificativa para escapar ao dever moral (...) adotando em vez disso os preceitos do interesse racional e da autopreservação (...) O mal pode fazer o trabalho sujo, apostando que a maioria das pessoas a maior parte do tempo evita fazer  coisas imprudentes e temerárias – como resistir ao mal, por exemplo.

E há uma outra lição do Holocausto, de não menos importância. Se a primeira lição é um alerta, a segunda  é uma esperança...
Esta segunda lição nos diz que colocar a autopreservação acima do dever moral não é algo de modo nenhum predeterminado, inevitável e inelutável. Podemos ser pressionados a fazê-lo, mas não somos forçados a isso, de maneira que não se pode de fato jogar a responsabilidade da ação nos que pressionaram para tal.
Não importa quantas pessoas optaram pelo dever moral acima da racionalidade da autopreservação – o que realmente importa é que alguns fizeram essa opção. (...) O testemunho dos poucos que resistiram desmantela a autoridade lógica da autopreservação – ele revela afinal do que se trata: de uma escolha”.

Bauman – "Modernidade e Holocausto", p.236.

Postagem reproduzida a partir do texto/link "Sempre há possibilidade de escolha à lógica estabelecida, é a lição deixada pelo Holocausto" do Blog "Casa Warat".

terça-feira, 27 de setembro de 2011

A liberdade amorosa (waratiana)




http://msocorrom.blogspot.com/2010/07/amor-respeito-e-liberdade.html

“De que hablamos cuando hablamos de libertad?(…) 

“La respuesta: hablamos de amor. (...)

La libertad es um acto de ternura que nos despoja de los vacíos, que cancela represiones y alivia el peso de las censuras; de tantas hipocresías y trivialidades disfarzadas de cosas importantes. (…) Libertad: tierra de sombras, adioses, Dolores, partos, encuentros; pero fundamentalmente: tierra de solidariedades."

(WARAT, Luis Alberto. Por quien cantan las sirenas: Informe sobre Eco-ciudadania, Género y Derecho – Incidências Del barroco em El pensamento jurídico. Florianópolis: UNOESC/CPGD-UFSC, 1996. p. 129.)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Revolução, por Félix Guatarri

Seria preciso tentarmos pensar um pouquinho o que quer dizer revolução. Esse termo já está tão estragado, tão desgastado, já se arrastou por tantos lugares, que seria preciso voltar a um mínimo de definição, ainda que elementar. Não tenho uma definição que eu me lembre de cor; não preparei conferência a respeito, senão eu teria uma no papel. Uma revolução, é algo da natureza de um processo, de uma mudança que faz com que não se volte mais para o mesmo ponto. O que aliás até contradiz o sentido do termo «revolução» empregado para designar o movimento de um astro em torno de outro. A revolução seria mais uma repetição que muda algo, uma repetição que produz o irreversível. Um processo que produz História, que nos tira da repetição das mesmas atitudes e das mesmas significações. Então, por definição, uma revolução não pode ser programada, pois aquilo que se programa é sempre do déja-la . As revoluções, assim como a História, sempre trazem surpresas. Por natureza, elas são sempre imprevisíveis. Isso em nada impede que se trabalhe pela revolução, desde que se entenda esse “trabalhar pela revolução”, como sendo trabalhar pelo imprevisível.

(GUATARRI, Félix; ROLNIK, Suely. Micropolítica: cartografias do desejo. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1996. p. 185)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

"Pra manter ou mudar (a do piano)"


Poder-se-ia chamar esta canção (dos Móveis Coloniais de Acaju) de Intersubjetividade e Transformação...
                                                              
"Tudo que eu queria dizer
Alguém disse antes de mim
Tudo que eu queria enxergar
Já foi visto por alguém
Nada do que eu sei me diz quem eu sou
Nada do que eu sou de fato sou eu
Tudo que eu queria fazer
Alguém fez antes de mim
Tudo que eu queria inventar
Foi criado por alguém
Nada do que eu sou me diz o que sei
Nada do que eu sei de fato é meu
Algo explodiu no infinito
Fez de migalhas
Um céu pontilhado em negrito
Um ponto meu mundo girou
Pra criar num minuto
Todas as coisas que são
Pra manter ou mudar
Sempre que eu tento acabar
Já desisto antes do fim
Sempre que eu tento entender
Nada explica muito bem
Sempre a explicação me diz o que sei:
Sempre que eu sei, alguém me ensinou
Algo explodiu no infinito
Fez de migalhas
Um céu pontilhado em negrito
Um ponto meu mundo girou
Pra criar num minuto
Todas as coisas que são
Pra manter ou mudar
Agora reinvento
E refaço a roda, fogo, vento
E retomo o dia, sono, beijo
E repenso o que já li
Redescubro um livro, som, silêncio,
Foguete, beija-flor no céu,
Carrossel, da boca um dente
Estrela cadente
Tudo que irá existir
Tem uma porção de mim
Tudo que parece ser eu
É um bocado de alguém
Tudo que eu sei me diz do que sou
Tudo que eu sou também será seu."

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O desfecho

Poema de Machado de Assis para o deleite dos Schopenhauerianos como eu ("viver é sofrer") e para os estudiosos da mitologia prometheica como o André Luan Domingues, com sua proposta ética pautada na alteridade e na ousadia humana de que, como ele costuma dizer, apesar do sofrimento decorrente dos atos de coragem, não devemos abandoná-la. Seja porque pela eternidade é o suplício, mas também o é a liberdade, fruto da luta pela iluminação dos homens quando roubamos o fogo de Zeus; ou ainda, porque se morrermos, como sugerido poeticamente por Machado, renasceremos com a proposta do novo homem, capaz de ser altérico.



Prometeu sacudiu os braços manietados
E súplice pediu a eterna compaixão,
Ao ver o desfilar dos séculos que vão
Pausadamente, como um dobre de finados.

Mais dez, mais cem, mais mil e mais um bilião,
Uns cingidos de luz, outros ensangüentados...
Súbito, sacudindo as asas de tufão,
Fita-lhe a água em cima os olhos espantados.

Pela primeira vez a víscera do herói,
Que a imensa ave do céu perpetuamente rói,
Deixou de renascer às raivas que a consomem.

Uma invisível mão as cadeias dilui;
Frio, inerte, ao abismo um corpo morto rui;
Acabara o suplício e acabara o homem.



(ASSIS, Machado. O desfecho. In:  ______. Melhores Poemas. Seleção Alexei Bueno. São Paulo: Global, 2000. p. 77).

quinta-feira, 21 de julho de 2011

A Chuva... ou pureza vital e incômodo aparente

Hoje acordei com aquele barulho que me fez dormir novamente.
Precisava trabalhar, e uma voz me dizia: "Sei que não quer levantar agora, mas vá em frente, tente!"
Ah a chuva! Como me causa sono. Oh, trabalho, tão bom e importante, mas tão cansativo. Fiquei então pensativo...
Depois de acordar, ideias malucas (beleza) me vieram à mente. E não naquela hora somente. A propósito, agora, de tão malucas que eram as ideias minhas - não sei se o pronome possessivo é apropriado, afinal foram espontâneas, independentes de manifestações volitivas de minha parte - esqueci-as várias. Sei apenas se tratar de certos delírios oníricos em plena chuva do dia.
Oh chuva, quão agradável és tu. (Uma rima neste momento poderia acabar com o modo cortês de escrever).
De ti perdi o medo, vendo gente chorando sozinha pelos (mesmos) cantos (de sempre), imóveis no lugar de onde deveriam há tempos ter saído.
Sempre um delírio musical anima o espírito e melhora o astral. Por tal razão é, que até uma velha canção, cheirando a churrasco, café e plantação vem à tona, sobretudo quando não se pode ver bem pelo parabrisa porque o mecanismo responsável pela limpeza não funciona como deveria, tornando a visibilidade distorcida.
Uma coisa hoje vi que via antes, mas não devaneava com mais afinco: a chuva é como o amor verdadeiro, atrapalham as atividades cotidianas e burocráticas, incomodam porquanto parecem limitar (ainda mais) a nossa liberdade, mas no fim das contas existem para purificar o ar, limpar e tornar o caminho de uma vida seca e árida mais vivenciável. A própria vida se torna mais viva - e que me perdoem os gramáticos mais rigorosos.
Em suma, é melhor ser pego pela chuva amorosa, sentir o desconforto do deslocamento do eixo pragmático da segurança e permanecer molhado de amor - a conotação sexual fica ao alvitre do leitor - , do que trilhar a mesma rota (suja) da secura sentimental, ou pior, quedar-se inerte num (diminuto e egoístico) universo sufocante pela liberdade do desamor e pelos grilhões das necessidades materiais.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Prosa poética na sala de espera

"A aflição de outrora torna-se angústia agora. Tranquilizo-me um instante, vejo-a, apesar de tudo, radiante. Queria fazer uma poesia; não consegui: que ironia. De qualquer modo precisava escrever: espero-te aqui fora, Sofia, nova razão do meu viver."




PS: Esta “prosa poética”, como decidi intitular, foi escrita quando minha querida Roseli estava na sala do pré-parto passando pelos procedimentos de preparo para dar a luz à Sofia, nossa linda filha. Nos dias anteriores lia eu a “Poética do Devaneio” de Bachelard e, no entanto não pude escrever uma poesia, por mais singela que fosse. Meu senso poético estava um tanto desequilibrado – se é que algum dia teve equilíbrio...

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Devaneios (poéticos) sobre o (não) Direito lunar: nudez lunática e liberdade sideral


Aspirações a filósofo...
Feito um grande bibliófago 
ou um poeta sem recursos.

As regras sempre me deixaram perplexo
Prefiro olhar e ouvir a Lua,
que iluminando a noite de um mundo complexo
fala-me o que fazer, mas o faz sempre nua.

Despe-se das vestes do poder,
e a despeito do dragão que carrega
permanece bela no anoitecer,
travando com a escuridão a mais sublime guerra.


A nudez lunar, enquanto fenômeno fantástico
Faz-me um melhor homem, um filósofo, um poeta...
Talvez mais um lunático
De coração amoroso e mente aberta.

O segredo do engrandecimento, contou-me uma fada,
Em tom um tanto erotizado,
que a Lua por “aparecer no escuro”, mostra-se pelada,
Por isso, talvez, deixe-me hipnotizado.

A hipnose da liberdade:
Um lindo pensamento sartreano:
“só não posso deixar de ser livre”:
A lua escraviza libertando!!!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Aforismo poético (de hoje) para ontem

O Sol é belo, de si emana a luz,
e nos permite sobreviver.
A Lua faz resplandecer
o sentido da vida ao qual ela nos conduz.

Continua...