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terça-feira, 10 de maio de 2011

"Talvez" - ou "Breno e um passeio solitário e coletivamente transformador"

Ontem, caminhando pelas ruas de sua cidade, Breno sentia que estava trafegando por um lugar diferente, desconhecido para ele. Na verdade ele sempre morou no mesmo lugar, e o trecho por ele percorrido era habitual.
Talvez o clima, talvez o pequeno número de pessoas, talvez a mudança pessoal que lhe rendeu uma nova visão. Enfim, são inúmeros os "talvezes"...
Outro talvez poderia se referir à leitura que recentemente havia feito da entrevista de Alain Badiou sobre o valor revolucionário do Amor. Temática que tanto o agrada.
Talvez, também, fosse a entrevista de Emmanuel Levinás, transmitida um dia antes de seu caminhar errante em um dia comum, que o tivesse tornado outro.
Talvez, todos os "talvezes" não sejam, "talvezes" quaisquer. Mas talvez o maior de todos os "talvezes" que se entrelaçam e brincam de realidade com Breno seja aquele que cultivou em seu coração a semente da esperança de um mundo melhor, pois Breno ratificou para si que o mundo ao seu redor pode ser mudado quando ele próprio se permitir ser transformado.
Um revolucionário sente que o é, por mais que seu sentimentos candentes tenham por algum motivo sido arrefecidos. E Breno, embora fantasma perambulante que é, sabe bem disso, e mesmo que passe despercebido aos olhos das pessoas, não o será no tocante aos corações destas. Ainda que elas jamais saibam da existência ou do nome de Breno. O valor revolucionário de Breno está para além dele, foge à sua individualidade, e faz de um fantasminha, um espírito melhor, em busca da luz que ilumina seus passos, dando -lhe nova visão e mostrando que os lugares de outrora são os mesmos, mas outros também, e "talvez".
Basta caminhar, acreditar e querer ser revolucionado pelo Amor. É impossível que tal fenômeno não se propague à coletividade, ainda que leve tempo.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Segunda (e talvez última) parte de: Espírito e matéria: reflexões de um fantasma em apuros

Quando me contava, Breno deixara escapar que certo desinteresse pela história o acometia. Era perceptível até mesmo uma certa frieza de sua parte, já que considerava meio sem emoção, quase uma trivialidade disfarçada de história importante - parafraseando Warat.

Era uma tarde de um dia qualquer e Breno me contara que há alguns dias coisas esquisitas aconteceram. A primeira delas foi que sentiu uma baforada com fumaça de cigarro em seu rosto de fantasma quando estava prestes a dormir, encerrando suas orações noturnas. Ao abrir os olhos, deu de cara com o vazio. Nada estava à sua frente que fosse possível ver - pelo menos com os seus olhos. Não significa isso, dizia-me Breno, que ninguém estivesse ali, parado ao lado da cama.

Seu quarto é pequeno, e nenhum outro fantasma da espécie de Breno havia fumado naquele local, nem sequer próximo para que a fumaça chegasse até lá. A propósito, havia algum tempo que Breno estava na cama, e até então seu olfato não captara nenhum aroma desagradável qual era o produzido pelo tabaco.

Puxou o ar com força para detectar se era maluquice ou de fato o cheiro permanecia no ambiente: a segunda hipótese preponderou. Digo "preponderou" porquanto Breno olhava de modo aparentemente doentio do ponto de vista psíquico. Com os olhos esbugalhados, mas sem demonstrar medo, a história ia sendo contada.

Disse Breno que certamente era um fantasma de outra dimensão e que apesar de não poder vê-lo, sentiu a presença de alguém diante de si. Além do mais, uma certa movimentação no ar lhe convencia que não estava sozinho. Bastou prosseguir a sua oração, pedindo paz àquele fantasma (mais) debochado (do que Breno) para que o cheiro sumisse.

- Foi embora com o seu fantasma. Disse-me Breno.

Mas dias antes uma forte contração na altura dos ombros lhe atingia. Era uma tensão demasiado intensa que não era passível de eliminação pela prática de certos exercícios e alongamentos (físicos, é claro). Era necessário um exercício fantasmagórico ou espiritual no pleno sentido do termo. Ao que parece as orações e a compreensão dos problemas dos fantasmas que o rodeavam constituíram uma bela prática esportiva...
E assim a conversa ia terminando, não sem antes Breno deixar nas entrelinhas a possibilidade de uma continuação. Sutilmente levou às mãos aos ombros e movimentou a cabeça de um lado para o outro deixando transparecer que alguma dor ou tensão novamente lhe acometiam. Só falta agora as portas internas de seu trabalho abrirem sem que nenhum fantasma de mesma dimensão esteja por perto...

PS: (Talvez seja o último capítulo. "Talvez", pois Breno vive e é imortal: um fantasma imortal - no Amor; daí dizer que capítulos assim possam se repetir, ou nunca mesmo acabar)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Espírito e matéria: reflexões de um fantasma em apuros

Breno era um fantasma desses que andam por aí. Trabalha, estuda, alegra-se e se entristece. Tem ambições e (portanto) carências.
E igual a todos os demais fantasmas de sua espécie, Breno é rodeado por fantasmas que não vê, são fantasmas de outra dimensão, perdidos em busca de luz. Alguns deles podem até falar com ele por formas diversas, mas no geral, Breno somente sente a presença deles. Aliás, é preciso fazer uma correção. A intensidade do sentir e a comunicação por meio de outros fantasmas é muito similar.
É importante lembrar que Breno é um fantasma comum, e que os seus sentidos são limitados. Mais que isso, sua vida é limitada. Ele trabalha, por isso, precisa sair dele e amanhã continuar a história...

(Não percam o próximo capítulo)